A vida de cada pessoa é composta por três ciclos: o da construção, o da manutenção e o da destruição. Penso que podem ser resumidos a apenas o de construção (englobando o período de manutenção) e o de destruição.
Cada uma pessoa no mundo tem o seu próprio tempo de construção e o seu próprio tempo de destruição. Dificilmente, elas estarão em sintonia. Cada ciclo tem a sua importância e um não sobrevive sem o outro.
Naturalmente, a ideia que mais nos assusta é a da destruição.
Numa tentativa de fazer meu pensamento mais elucidativo, imagine o seguinte: cada pessoa, ao nascer, recebe um pedaço de terra e uma quantidade finita de madeira, tijolos, cimento, entre outros... E todos nós nascemos com o senso comum de um abrigo. Então, todos começamos na fase de construção. Começamos por ocas simples, que cumprem o papel principal de um abrigo: proteger do mundo externo. Aos poucos, cada um de nós tem a sua primeira fase de destruição. Alguns mais cedo, quando a família desmorona - e a ideia de família é o alicerce de todas as edificações, ou quando começa a perceber que o mundo não é tão perfeito e nem justo como queremos acreditar. Nem sempre um é igual a um. Alguns demoram um pouco mais de tempo, quando eles mesmos percebem que o abrigo construído não é suficiente.
O princípio da destruição segue a ideia dos três passos:
1º) Compreensão: dos fatores externos que revelam falhas no abrigo, dos fatores internos que revelam as insatisfações pessoas com o abrigo. Visualização dos problemas, compreensão dos mesmos, buscas de respostas. Uma vez que encontramos tais respostas, vamos para...
2º) Destruição: Na maioria das vezes, deparamo-nos com problemas que ferem nossas bases de ideias. É preciso, então, destruir o abrigo atual para abrir espaço para a criação de um novo abrigo, dessa vez de acordo com as respostas obtidas na fase de compreensão. Uma vez derrubado o abrigo, finalizamos com...
3º) Reorganização: Uma vez destruído o abrigo, é preciso reorganizar os espaços, os materiais e nós mesmos para iniciarmos uma nova fase de construção.
Por definição, o que aparece brevemente acima seria "perfeito". E fases de construção e de destruição se sucederiam, formando o equilíbrio. No entanto, muitas vezes travamos em um processo.
Quando se trava no processo de construção, vemos pessoas que tentam remendar o tempo todo ideais que por si só estão fragmentados. Há um esforço sobrehumano para evitar o processo de mudança, intimamente ligada com a fase de destruição. O medo da mudança, no entanto, não evita que ela aconteça. E, em determinado momento, o meio externo provoca a fase de destruição, sem que tenhamos buscado as respostas durante a compreensão.
Há os casos em que a pessoa se contenta com abrigos minúsculos e cria novos sem tentar manter o anterior ou destrui-lo. Cria então um universo repleto de pendências e situações mal resolvidas, que comprometem o tempo presente. Isso dura até o fim de espaço de terra ou até a escassez de materiais de construção. A pessoa não confronta ideais antigos e nem reflete sobre os mesmos, provocando estagnação pessoal.
Há também crises em que a pessoa fica presa durante o processo de destruição: quando, em meio a muitos problemas, ficamos cegos para a compreensão dos nossos erros; quando a destruição necessária envolve alguma premissa que agrida nossa ética ou fira algum dos nossos conceitos mais sólidos (em geral, conceitos básicos na nossa vida, como aqueles pregados por nossos pais); quando parece não haver força para destruir algo que parece ainda não resolvido...
E o pior dos casos: quando se trava na reorganização. A pessoa sabe os problemas e os erros, sabe a solução, desmorona o conjunto de ideias antigo e tem medo de reconstruir por saber que haverá mais erros e novos processos destrutivos. A pessoa fica a mercê das chuvas, do frio, do calor escaldante, sem ter no que se amparar.
O equilíbrio temporal é quando você gasta o tempo necessário em cada fase, sem se prender a nenhum processo. Se você percebe que está estagnado, avalie em que parte do processo você se perdeu. Faça-se as perguntas certas. E as respostas podem ser as mais simples do mundo.
Se acha que não tem mais força, pense em quanto se esforça para se manter estagnado. Acredite, é necessário mais força para conter o tempo do que para viver o que cada um de nós precisa viver para chegar até o final de tudo.
A Lica que escreveu este texto, em 15/01/2006, era uma estudante de eletrônica, com achismos de filósofa, que buscava simplificar o mundo em um abstratismo quase tão complexo quanto a cabeça com alguns parafusos a menos que ela tinha.
A Lica que reencontrou este texto e um blog/diário escrito em 2006, no início do seu processo de destruição e reconstrução, chorou com algumas lembranças, mas está aliviada sabendo que boa parte disso ficou para trás.
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