2025/05/11

Revelação

Foi na primeira semana de abril que Júlia explodiu, ou, como dizem por aí, "aguentou foi muito". Depois de perceber o quão ridícula era a situação de ter passado quase todos os recreios do mês de março no banheiro, sentiu que era necessário dar um basta. Encarou a porta da 22A e resolveu saiu.
- Até que enfim veio me contemplar com o ar da sua graça - sorriu Vinícius.
Bufou:
- Em primeiro lugar, eu não contemplo nem você e nem contemplo você com nada. Esse "verbo" está totalmente fora de propósito.
- Tá estudando regência? Sou péssimo, me ensina? - ele a circulou.
Júlia desviou e, em vez de se sentir acuada e prensada contra a parede, tentou imaginar que, em vez de Vinícius, era Hiroshi quem estava lá. Isso lhe deu segurança para fazer o oposto - Em segundo lugar... - enquanto falava, ela o intimidava, fazendo-o recuar até o corredor aberto -, você não vai me cantar, nem dizer o que fazer, nem respirar o mesmo ar que eu. Você vai esquecer a minha existência e procurar outra pessoa para perturbar.
- Que agress...
- CA-LA-DO! Agora é você quem vai me ouvir: eu tentei ser legal, e ser legal não quer dizer que estou te dando mole.
- Eu adoro você zangada.
- Você vai fazer o favor de sumir da minha frente. Eu tenho um total de zero interesse na sua pessoa. Você é insuportável! Você é só um cara que não sabe ouvir um "não". Então, some!
Ouviram-se burburinhos no corredor. A menina não percebia que seu tom de voz ia subindo, chamando a atenção de quem estava dentro das salas também.
- Você vai se arrepender, porque o Alvaro não está nem aí pra você.
- O que o Alvaro deixa ou não de pensar sobre mim não diz respeito a você. Você não é meu prêmio de consolação - ela sentiu um alívio em falar tudo de forma tão explícita, como se tirasse um peso do coração - Se o Alvaro não gosta de mim, é problema MEU. Se eu sou apaixonada por ele desde o oitavo ano, o problema é MEU! Não é porque ele não me corresponde que eu vou ficar com você. Entendeu?
Os olhos de Vinícius deixaram de encarar Júlia para fitar a porta da 22A.
- Você gosta de mim? - era a voz de Alvinho.
Júlia gelou. Ela havia se exaltado, ela havia gritado, na verdade, e nesses berros ela anunciou aos quatro ventos que ela era "apaixonada por ele desde o oitavo ano". Sem saber como reagir, ela não conseguia virar de costas para encará-lo.
- Sim. Desde... sempre.
- Eu nunca soube.
Os olhos dela ficaram úmidos, sentiu seu corpo tremer, abaixou a cabeça e disse num sopro de voz:
- Todo mundo sabe. Eu achei que você soubesse.
O corredor foi tomado de silêncio. Vinícius, percebendo que estava realmente sobrando, deu-se por vencido, virou-se em direção às escadas e abandonou o pavilhão. Restaram apenas três turmas de segundo ano observando o não-casal em destaque.
- Eu. Não. Sabia - ele respondeu, em choque.
Júlia respirou fundo e, numa tentativa de se recompor, girou em direção ao amigo e, num sorriso meio condescendente, respondeu:
- Não é nada de mais. Eu gosto de você. Muito, aliás. Tanto que eu sei que tá tudo bem você não gostar de mim também, desse jeito.
- Mas... - ele continuava travado como se algumas engrenagens na sua cabeça não mais funcionassem.
O sinal do término do intervalo tocou, no entanto ninguém se mexeu. Havia tensão demais.
- Vamos voltar - ela suspirou - Já vai começar o tempo de biologia. O professor Carmo já vai...
- Eu gosto de você.
- Quê?
- Júlia, eu gosto de você.
- Aeeeeeeeeeee, finalmente!!! - surgiram alguns berros no corredor, mas eles não ouviam.
- Alunos, pra sala! - o inspetor Macedo gritou.
Júlia e Alvaro não se mexeram.
- Você o quê?!
- Olha, eu não sei o que fazer a partir de agora, mas eu gosto de você também. Eu sou louco por você desde o oitavo ano!
Ela estava perdida. Como tudo havia extrapolado todas as expectativas e se transformado em questão de minutos. O mundo inteiro havia girado e ela, que só queria paz e sossego do seu perseguidor, acabou se confessando para seu amor, até então, platônico, e acabou descobrindo que era correspondida. Era muito para assimilar.
- Ok - foi tudo o que conseguiu falar.
A feição dele também era de puro pânico.
- A gente tá parecendo idiota agora, né?
Ela assentiu.
- Depois da aula?
- Depois da aula.
- Até que enfim, &%*#!! - foi o comentário final no corredor.

* * *

- Eu só não gostei da parte de você imaginar que estava falando comigo para finalmente vencer seu inimigo - protestou Hiroshi.
- Não, você não tem nada a ver com ele... É só que é mais fácil pra mim gritar com você - brincou Júlia.
- Não sei se é um elogio ou algo para protestar - ele riu, com o orgulho um pouco ferido - Mas estou orgulhoso de você. Já não era sem tempo para se livrar daquele atraso de vida.
Ela sorriu.
- Então vocês estão namorando?
- Sim - ela riu, como uma criança comemorando o Natal - Eu acho. A gente meio que não conseguiu definir isso, e também eu acho que meus irmãos vão ser contra, então...
- Eles vão ter de se acostumar com isso, de qualquer forma. Mas e você? Como se sente?
- Feliz, eu acho.
O mago ficou feliz por ela.
- Até que enfim! - ele brincou - Já não aguentava mais esse chove e não molha. Bem, sem querer estragar sua alegria, mas você vai encarar uma missão nova hoje?
- Acho que não. Eu só queria conversar com você e lhe contar a novidade. E vão começar os testes... preciso estudar.

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Hoje não estou bem

Hoje não estou bem. Minha vontade é de sumir. Não consigo nem chorar mais. Não aguento mais pensar nos outros.